Tua religião te traz conforto?

Otávio Avendano (Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal)

(por Otávio Avendano)

Querido leitor:

Em tempos de dor, o homem busca o transcendente, que lhe traga um pouco de conforto e um sentido mais abrangente para a existência. Numerosas pessoas não conseguem adormecer sem tomar algum medicamento e isso revela, por trás de uma abundância tecnológica, que o ser humano ainda carrega uma profunda angústia interior. Uma falta de norte, de uma bússola. Estamos perdidos.

Ao lado deles, os religiosos. Corações que se entregaram à experiência religiosa exterior. São ótimos ritualistas, frequentam as reuniões, cumprem as etiquetas sociais da sua religião, frequentam o templo, a casa espírita, a igreja, nos dias determinados, leem os livros indicados, mas enxergam no trabalho religioso mais uma convenção social, uma espécie de clube, onde desfilam, conversam, confraternizam, mas muito pouco edificam. Essa religiosidade exterior é preciosa, pois já representa um passo, um esforço da alma rumo à evolução espiritual, mas que não resiste ao toque da mais leve dor. A menor das contrariedades é capaz de destruir essa camada fina e revelar um coração revoltado, agressivo, egoísta. Um coração que pretende barganhar facilidades com Deus, ao preço da devoção.

Por isso, vemos em toda a história bíblica um contraponto muito curioso: tanto aqueles que não conheciam a mensagem espiritual quanto os religiosos, sempre pautaram suas vidas e suas condutas pela violência, pela força. Mesmo os cristãos foram identificados pela violência dos seus métodos. A história nos mostra : a noite de São Bartolomeu, as cruzadas, a Santa Inquisição. O cristianismo se expande às custas do poder político e da violência.

Isso nos leva a refletir sobre uma fé cega que os humanos têm na violência. E não podemos alimentar uma ingenuidade: a violência resolve rápido qualquer problema… rápido, mal e por pouco tempo. A brandura e a paz é um processo difícil de ser implementado, cujos resultados demoram para dar efeito. Na crise, a primeira apelação é aderir aos processos de violência, pois são tudo o que a sociedade espera: uma solução rápida, ainda que ineficiente e de curta duração… mundo da rapidez e da pressa!!!

Temos revelado essa falta de fé. Basta uma leve notícia de uma crise política nas redes sociais e elas se enchem se manifestações de ódio por parte desses mesmos religiosos em busca de alguma promessa concreta de bem estar material, feita por algum ser humano que se intitule o salvador da pátria.

Junto, a crença em um Deus antropomórfico, que se ira, se revolta, castiga…um Deus que não cabe mais na inteligência humana, lembrando a célere citação de Voltaire: “Eu acredito no Deus que criou os homens, e não no deus que os homens criaram”.
Ao mesmo tempo, vemos provavelmente a maior dificuldade: a violência física foi substituída pela astúcia, onde os religiosos disputam o poder, o brilho, o destaque, os cargos…isso quando não se utilizam da premissa para a projeção política. É como se eles mesmos não tivessem a sensação da finitude dentro de si, o que justifica a busca da recompensa ainda em vida, não importando se estão mercadejando a fé por trocas de favores.

Não, eu não estou dizendo que as religiões não são boas. Eu estou falando dos homens. Estou falando que é importante a fé, a transcendência, o divino, a auto realização e a confiança em algo que nos rege com sabedoria, inteligência e amor. E quando o homem encontra isso, perde o desespero e sente o valor da moeda mais cara do mundo, que é a paz.

Eu estou dizendo que o grande papel das religiões, muito especialmente em um momento onde estamos vendo pessoas morrendo por causa de uma pandemia, é o de nos trazer o consolo, não o de disputa por palcos, onde alguns mostram suas vaidades em nome do sagrado. Eu estou falando em uma religiosidade que não nos amedronta (as crises sem precedentes que estamos enfrentando já o fazem).

Eu estou falando em os religiosos se unirem, todos os credos, e se sentirem felizes em proporcionar felicidade no outro, estou falando de tolerância, até mesmo com quem escolhe não acreditar em Deus. Estou falando que não há mais espaço para o fundamentalismo.

E falo mais: é hora de nós, os religiosos, aceitarem os ataques e as críticas, pois as críticas nos ajudam a perceber o que realmente importa.

Neste sentido, recordo-me de Gandhi, Nelson Mandela, Desmond Tutu, Martin Luther King, Madre Tereza, Irmã Dulce, Chico Xavier…recordo-me dos círculos de construção de paz, da Justiça Restaurativa, que foram ou são agentes pacificadores no meio dos conflitos, não de seus sofás com um celular na mão, achando que está pregando a paz.

Acreditar em Deus, força superior, o Todo, seja o nome que quiseres dar, nos traz o conforto que tanto precisamos. Porém, se esse Deus te coloca medo, se esse Deus te faz assistir as disputas humanas de brilho…não é Deus. Ele não está ali.

Que esse Deus esteja em nossos corações, a exemplo das palavras do maior ídolo dos cristãos, que é Jesus: “O Reino de Deus é obra divina no coração de cada um”.

Otávio Avendano é palestrante, formador de círculos de construção de paz e humanista.

Em seu Instagram, ele apresenta lives sobre espiritualidade e desenvolvimento pessoal.

Instagram @otavioavendano

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