Na mesa do luto

Vanessa Avencurt - Terapeuta. (Foto: Divulgação)

Já se passaram dois anos e cada vez que entro no teu quarto sinto teu cheiro. Aquele teu cheiro de pai, sabe? Roupa lavada, mas velhinha. Alguns dias atrás achei a tua agenda, fiquei admirando tua letra impecável! Obser­vei a estrutura organizada das contas da casa. A quem eu puxei? Consegui ver toda a imagem: óculos na ponta do nariz, teu leve movimento levantando a cabeça para enxergar mais de perto a página.

Achei a tua agenda de 2016. Li tudo que fizeste aquele ano. Cada página amarela continha uma histó­ria, um dia de alguma semana que, com certeza, eu te vi, eu passei lá em casa, porque casa dos pais sempre vai ser nossa! Lembrei-me das tuas liga­ções no fim da tarde para saber que horas eu ia chegar, se eu ia passar pra tomar um café. Mas é claro que sim, claro que sempre passei, claro que morro de saudade!

Quando se perde alguém que ama, é aberto um bura­co no peito. Mas quando perdi meu pai, aprendi que uma parte da gente morre junto. Fez dois anos que uma parte de mim morreu. Eu lembro bem daquele dia, do teu último olhar, da custosa separação das nossas mãos e de te deixar nas mãos de pessoas des­conhecidas. Eu lembro exatamente de cada detalhe do rosto daquele médico, eu acho que ele tinha uns 30 anos, no máximo, mas quis depositar minha fé num que tinha 33. Mesmo assim, Je­sus quis te levar aquele dia e eu, às vezes, até concordo com Ele, pois tu era uma pessoa maravilhosa de con­versar, era gostoso te ter por perto, nenhuma festa ou aniversário tinha graça sem ti. E olha que tu ficavas só parado, sentado, batendo o pé, cur­tindo as músicas, rindo das crianças brincando. Podíamos ficar em silêncio durante um tempo, mas palavras não eram necessárias, teu colo era! Tua presença, teu silêncio, tua cara me olhando quando eu falava dos meus problemas, tudo isso ainda se faz ne­cessário para o meu mundo.

Quando recebi a notícia da tua partida, saí da Santa Casa, onde no momento só teu corpo estava, e fui para rua respirar. Vi os carros passando, pessoas que se di­rigiam para algum lugar resolver algu­ma coisa, mães e pais com as crianças no colo, lembro que uma delas chegou a sorrir pra mim. Tudo estava normal, nada havia parado a vida continuava. Nenhum sinal no céu, nenhuma cra­tera se abriu no deserto, foi somente em mim todo o desastre, meu univer­so inteiro vindo abaixo, uma enxurra­da de impotência e solidão.

A morte chega sem convite, sem critérios, ela simplesmente chega, não tem pena e nem misericórdia de ninguém, ela não convida pra sentar à mesa do luto, ela obriga. De qualquer modo, não há maneira de combatê-la é isso que nos torna sábios, maduros. A morte nos ensina a valorizar o que realmente importa nessa vida.

Vanessa Avencurt
Terapeuta

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