“Vou contar tudo para Deus”

A imagem que me vem à memória em tardes frias e chuvosas é do meu pai aquecendo água para o chimarrão, no fogão à lenha. Com a chaleira quente, afastava para um lado da chapa a fim de manter a temperatura. Ritual que assisti desde a infância, infelizmente não na nossa casa no interior de Canguçu – de onde saí com quatro anos – mas de tios que aproveitavam o tempo para uma boa prosa. Éramos crianças. Por segurança nos mantinham juntos, afastados do fogo, mas perto o suficiente para nos aquecermos e ficar atentos ao que era dito.

Minha sala de trabalho, em casa, tem janela para a rua. Em dias de clausura involuntária, pelo mau tempo, torna-se observatório do movimento. No fim da tarde, passam crianças voltando da escola, acompanhadas das mães. Em dias mais quentes, é um passeio com brincadeira, correrias, gritos e chamadas de atenção. Quando está nublado e corre o vento sul, há o silêncio e a pressa para chegar ao refúgio da casa.

Ao redor do fogão ou acompanhado pelas mães no retorno da escola, crianças querem e precisam se achegar aos adultos que lhes dão carinho e compreensão. É arrimo, servindo de modelo para a construção da própria identidade. Ali se bebe o significado da partilha, respeito, interação e até de valores morais e religiosos. É um vislumbre do transcendente… mãe e pai nos dão uma primeira noção de Deus!

Foi o que passou por minha cabeça quando vi uma das imagens mais chocantes dos últimos tempos, registrada por uma socorrista que atende crianças na guerra da Síria. Ensanguentado, em choque, entre lágrimas, o menino de três anos olhou para a câmera e disse: “quando eu morrer, vou contar tudo para Deus”! Morreu em seguida.

As pessoas simples do interior ou as que moram nas periferias das cidades sabem o quanto a criança é frágil e precisa ser cuidada. Com o tempo, aprendem muito daquilo que vão levar para a vida. Na maior parte das vezes, mesmo pais que não têm noções e saberes pedagógicos intuem que é neste período que se aprendem valores e referências.

O menino se transformou numa lembrança e num alerta. Não culpava Deus por sua desgraça, mas sabia que “homens maus” faziam na sua terra uma disputa que para o seu povo não tem sentido. Sua gente queria e quer, apenas, o direito a um lugar para morar, segurança para andar pelas ruas, criar seus filhos… em meio a tanto sofrimento, almeja ser feliz na sua própria terra!

Em noite estrelada, anestesiados pela dor, olham para o céu e pensam que lá tem um garoto que, enfim, encontrou o carinho de braços abertos e um lugar onde não há guerra. Uma “estrelinha” que não precisa mais fazer queixas para o Criador. Sua morte transforma-se em clamor universal contra a violência, em especial a que sofrem crianças e inocentes… um angustiante grito pela paz!

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