Pra não sofrer a gente sofre: a estranha matemática do amor

Otávio Avendano é Psicanalista, hipnoterapeuta e neurocientista do comportamento humano. (Foto: Arquivo Pessoal)

O ser humano se apaixona bastante, é o combustível da dopamina cerebral. A menina das nossas vidas, o garoto dos sonhos, todos os efeitos colaterais passeando pelo corpo feito bicho curioso dando cócegas nas pernas, trancos no peito, solavancos nos ombros, suores nas palmas das mãos e na nuca, atrapalhando respiração, desestabilizando qualquer tentativa de concentração.

A gente fica doido.

Vai pra casa, pensa nele ou nela. Escreve sobre, conta pra alguém de confiança, disfarça dos amigos, imagina o que falaria, como beijaria, pra onde iriam juntos quando começassem a namorar.

E dá errado. Lógico. O fim, a calamidade, o abismo. Nada mais importa. Até a semana seguinte, quando a gente se apaixona de novo. Claro, afinal, não existe nada mais volátil do que uma certeza adolescente.

Namoramos, terminamos. Encontramos umas pessoas interessantes na balada, em festas, no grupo, na vida. No dia seguinte, quando era pra ter um “tranquilo, vida que segue”, fica o “ai, foi tão legal ontem, mas hoje tá tão chato”. Sabe como é? Da sua parte ou da outra. Liga empolgado e dá na caixa postal. Para todo o sempre.

Daí a gente vai criando casca. Um escudo de resguardo. Começa a botar um pé atrás ou, mais comum ainda, já antever: “ah, mas nem vai dar em nada, né, ele trabalha demais, ela só pensa no crossfit, tem pé chato, não enxerga direito o vermelho, não vai gostar do meu sexo, do meu corpo, das minhas piadas, do jeito com que acordo…”

O sofrimento por antecedência. Damos o fora em nós mesmos, antes que alguém faça isso. Antes que tenhamos de fazer isso. Agora imagina só a cena: você, todo todo, toda toda, sentado no bar com a pessoa desejada, ouvindo os papos interessantes dela, percebendo o jeito com que ela desliza o dedinho no copo de cerveja pedindo de modo sutil um encosto, um toque. A maneira com que o cara te deixa contar da sua vida profissional, da abertura genuína que ele traz pro encontro, mas a cabeça sua tá onde?

Pensando nas babaquices do cara por quem é apaixonada faz oito anos, do medo de se achar uma pessoa menor, não suficiente, da ideia de vingança, no medo de dar muito afeto e afastar a pessoa, no delírio de achar que quem tu amas não te quer, no receio de fracassar, na ideia de ser trocado, de ter alguém melhor por aí, melhor que ela, melhor que ele, melhor que essas pessoas todas juntas.

Melhor que tu.

Longe. No pé na bunda. No cálculo da conta pra ir embora. Já “prevendo”, não escutando, sem um pingo de culhão para enfrentar. Suando frio, tremendo as pernas, respirando errado, ansioso, desesperada. Que nem…

…um adolescente.

Pra não sofrer a gente sofre.

Uma baita estratégia, né?

Vamos nos libertar desse padrão?

*Otávio Avendano é especialista em Hipnose Clínica e pós-graduado em Neurociências e Comportamento

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome