O povo gaúcho

Sérgio Corrêa, jornalista e radialista.

Por Giulia Viapiana Corrêa

A definição de “gaúcho” no dicionário Aurélio é: “s.m. rio grandense do sul”. E para uns, o termo não vai além de um gentílico para quem nasce no Rio Grande do Sul. Entretanto, engana-se quem não vê a polissemia da palavra.

Não nego que seja um gentílico, mas proponho uma interpretação extensiva do termo. Explico: pode-se dizer que gaúcho é um estado de espírito, é um conjunto de hábitos e de características intrínsecas ao povo que assim se vê – é gaúcho quem quer sê-lo. Ser gaúcho não se restringe à estética de vestir uma pilcha, ao cevar o mate diariamente, ao camperear a cavalo ou a empregar um “bah” a cada frase dita.

A formação da identidade gaúcha é das mais diversas possíveis. O gaúcho é a in­tersecção, forjado na fronteira entre o brasileiro, o uruguaio e o argentino. O gaú­cho é o indígena, o castelhano e o platino, é o luso, o ibérico e o africano, o Sul e o latino-americano – é o paisano, patrício da mesma pátria mãe e, ao mesmo tempo, o orelhano, sem pátria que o pago acolheu.

A multiculturalidade dos gaúchos rendeu a diversidade dos hábitos em uma singular fusão, talhada a muitas mãos, manchada de terra, sangue e suor – como bem dito na canção “O Grito dos Livres”, de meu querido professor José Fernando Gonzalez.

É evidente que o mundo muda e os costumes dos povos não podem e não devem ficar estanques. As coisas boas, como as lendas, as histórias, as virtudes e as ar­tes precisam ser preservadas – mas jamais subvertidas ou apropriadas por uma narrativa única, que intenta determinar quem é ou não “gaúcho de verdade”, como pretexto de excluir quem pensa ou vê o mundo de maneira distinta.

A ANCESTRALIDADE DO GAÚCHO

Recentemente, lendo o livro “Ideias para adiar o fim do mundo”, do mais novo imor­tal da Academia Brasileira de Letras, Ailton Krenak, do povo Krenak, que vive na região do Vale do Rio Doce, me pus a refletir sobre o descolamento dos humanos da terra. Pensei também sobre os primeiros gaúchos – os indígenas Jês, Pampia­nos e Guaranis.

Quando foi que nós, gaúchos, paramos de ouvir o que o Minuano sopra em nossos ouvidos? Quando foi que paramos de ver o rumo da história no bater das asas dos pássaros e dos cascos dos animais? Quando paramos de ler o futuro no movimento das nuvens, nas chuvas e do frio que chega e que vai?

Em determinado momento da obra, Krenak conta que o Rio Doce, chamado pelo seu povo de “Watu”, é considerado seu avô, um membro de sua família. “Ele [o rio] não é algo de que alguém possa se apropriar; é uma parte da nossa construção como coletivo que habita um lugar específico […]”.

Para o povo Krenak, as montanhas dizem quando será um bom dia ou não e mos­tram quando vai chover – basta saber entender. Diz o imortal, “quando despersona­lizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista”.

Em que momento da história passamos a ver nossas vastas sesmarias de terra e nossos rios e lagoas como recursos, como algo explorável – por consequência es­gotável, e não mais como uma parte da nossa identidade? Quando foi que objetifi­camos todas as belezas da natureza do nosso Rio Grande do Sul? Que esquecemos que o bioma pampa só existe aqui?

Krenak alerta que “do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando órfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos”.

Evidentemente que a tragédia que paira sobre o nosso estado é parte de um des­colamento do ser humano da natureza em todo o mundo e não somente no Rio Grande do Sul ou no Brasil. Mas, por sermos um povo fundado na multicultura­lidade, com uma enorme gama de saberes ancestrais sobre a natureza, é nosso dever restabelecer a nossa conexão com a terra, voltar a ouvir o que ela nos diz, e contar isto para todos – quem sabe assim conseguiremos efetivamente ter ideias para adiar o fim do mundo.

Seguimos na luta, pois, como já dizia Vitor Ramil em Semeadura, “nós vamos pros­seguir, companheiro, medo não há […] Nós vamos semear, companheiro, no cora­ção, manhãs e frutos e sonhos, pr’um dia acabar com esta escuridão. Nós vamos preparar, companheiro, sem ilusão, um novo tempo, em que a paz e a fartura, bro­tem das mãos”.

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