O caseiro

Cássio Lopes, escritor e historiador.

Antigamente, as estâncias eram enormes, com grandes extensões de terra. Era normal encontrar fazendas com mais de 20 quadras de campo. Várias delas possuíam imensos rebanhos bovinos, ovinos e equinos que necessitavam geralmente de peões posteiros e campeiros, que eram comandados por um capataz. Este e o posteiro normalmente residiam com suas famílias, sendo o primeiro perto da casa do patrão e o segundo no posto da estância. Os demais habitavam em quartos construídos no interior do galpão da fazenda.

Além da lida de campo, também existia sempre muito que fazer em redor “das casa”. Tirar um campeiro da lida, para executar essas tarefas, seria desaconselhável, e ademais, a maioria destes não apreciava nem um pouco os serviços caseiros. E devido a isso foi criada assim, a importante figura do caseiro. Suas tarefas, em geral eram: tirar leite das vacas, carnear, varrer galpões e terreiros, tratar dos cavalos, galinhas e porcos; cuidar da horta, trazer as vacas leiteiras à tardinha para prender os terneiros, cortar lenha para a cozinha da sede da estância e para o fogão campeiro ou lareira dos galpões.

Hoje em dia, esse cenário mudou bastante, pois quase não existem mais grandes estâncias. A maioria foi desmembrada, diminuindo assim, consideravelmente, o número de peões campeiros nelas. Outro fator que contribuiu para essa situação foi o êxodo rural da classe, que prefere trabalhar na cidade, onde as condições de trabalho, acessibilidade e salários são mais atrativas. A prova disso é o considerável número de fazendas que trabalham com apenas um peão, que desempenha, concomitantemente, as funções de campeiro e caseiro. Mas, independente das mudanças conjunturais, o caseiro ainda permanece firme, como palanque de guajuvira e continuará sendo sempre um serviço indispensável e de suma importância no meio rural. Esse xucro ofício foi retratado e eternizado com riqueza de detalhes pelo poeta Jair Acosta através dos versos da poesia “O galpão e o caseiro”:

O velho galpão de estância/De santa fé e torrão/Onde, todas as madrugadas/Eu tomo o meu chimarrão/É sala, quarto e cozinha/Do capataz e “dos peão”. Com os teus portões sempre abertos/Para alguém que queira chegar/Para pedir a pousada/Ou até para desencilhar. E o tempo velho se armou/E já começou a relampear. Logo aparece o caseiro/Pra receber o visitante/Puxe o cavalo pra adiante/Que o tempo velho tá feio/E aqui tem um cavalete/Já vai botando os arreios. Puxe um banco e vai sentando/Que o mate eu vou preparar/Depois vou buscar os terneiros/Tá na hora de encerrar/Que o capataz e os peão/Não demora vão chegar. Eu vou seguir na minha lida/Que é para não me atrasar/Tenho que juntar uma lenha/E até um machado para afiar/E ainda trazer o consumo/Que hoje é dia de carnear. Carneio de “tardezita”/Por causa “das varejeira”/ Logo tiro o espinhaço/E levo para a cozinheira/E o restante da carne/Eu boto na geladeira. O assado do pescoço/Esse, eu trago pra o galpão/E, amanhã de madrugada/ Encosto ele num tição/Que serve pra uns tira-gosto/Na hora do chimarrão. Levanto de madrugada/Geralmente, eu sou o primeiro/Boto o milho para as galinhas/E os porcos lá no chiqueiro/E quando venho de volta/Trago um petiço sogueiro. Depois de um mate tomado/Vou buscar a recolhida/Tiro leite para o café/Sigo de novo na lida/Deixo “os peão” sair para o campo/E, no galpão, dou uma varrida.

Fonte:

Ferreira, Cyro Dutra. “Campeirismo Gaúcho – Orientações Práticas”, Porto Alegre, Evangraf, 2013. 94 p.

Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Issues 18-20, Universidade de S. Paulo, 1976

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