Monquelat: “Os livros fazem silêncio”

Manoel Jesus, educador

Nas mudanças dos conteúdos de disciplinas que lecionava no curso de Comunicação – Redação 3 – foi incluído o Novo Jornalismo (ou Jornalismo Literário). Das muitas leituras, percebi que precisava ter contato com a extinta revista Realidade, assim como alguns dos grandes nomes de profissionais desta área, com forte influência norte-americana. Na biblioteca da Universidade Católica não havia nada disto. Foi então que falei para um grupo que estava na sala dos professores, num intervalo de aula. Foi quase unânime: precisava consultar o dono de uma livraria e sebo, o Adão Monquelat.

Nunca tinha entrado numa livraria que também era sebo e foi encantamento à primeira olhada. A simplicidade do atendente e os espaços estreitos entre as prateleiras tornavam o lugar uma preciosidade para quem precisava da orientação de um livreiro, pesquisador e escritor. Sem ser pedante, trazia temáticas que eram luz para conhecer autores ou quem ajudaria a entender melhor o tema. “Referência”, como disse Ana Cláudia Dias, no texto “Pelotas perde Adão Monquelat”, assim como a feliz chamada de capa em que consta a sua foto e um epíteto: “Os livros fazem silêncio”.

Na primeira conversa, expus o problema com a bibliografia. Mais do que isto, sabendo que a maior parte das edições esgotara, queria constituir acervo pessoal e levar para a aula o material a fim de que os alunos pudessem manipular. Iniciamos pela revista Realidade que, no Brasil, estavam apenas em mãos de colecionadores. Mas…… sempre existe um mas…… ele acreditava que, indo a Montevidéu (não sei se o próprio ou conhecidos), garimparia em sebos da capital da república oriental.

De fato, as edições que depois doei à hemeroteca da Universidade vieram do país vizinho, sendo cobrado o preço de uma revista semanal daqui. Também estão lá obras que se garimpou com o tempo: A Sangue frio, Truman Capote; Hiroshima, John Hersey; Rota 66, Caco Barcellos, entre outras. Fizeram o encanto dos futuros profissionais do Jornalismo, que sabiam da sua existência por citações. Ao fim da aula, brincavam que acabariam “esquecidas” dentro das suas mochilas……

Durante a pandemia, não estive em livrarias e sebos. Mas já vinha me programando para voltar a percorrer estes espaços em busca de material que subsidie minhas atividades. Não era só o que auxiliasse em atuações profissionais, também a oportunidade de percorrer estandes e buscar títulos de suspense e ação, meus preferidos para momentos de desopilação. Já conhecia o lugar onde ficavam, mas sempre recebia a companhia carinhosa para mostrar o que havia chegado de novo.

Poderia contar, ainda, que me ajudou a recuperar livros que, de tanto emprestar (e não voltar), desisti de adquirir. Rondando sobre minha mesa estão o Pequeno Príncipe, Fernão Capelo Gaivota e O Profeta. Não queria acreditar, mas o sentimento é real: o mundo dos livros silenciou mais um pouco. Há algo de especial em homens e mulheres que tratam a leitura como ser amado, com momentos de seriedade ou aqueles em que ela brinca com as inteligências. Partindo, o vazio entorpece os sentidos e faz falta. Fica a saudade e, nas páginas dos livros, as muitas lembranças!

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