Família: entre o colo e o abraço…

Manoel Jesus, educador. (Foto: Divulgação)

Sempre achei que datas especiais – como recentemente o dia dos Pais, mas também dia das Mães, do Irmão, dos Avós (tem do cunhado?) – deveria ser pensado como Dia da Família. O dia existe, mas fica estranho olhar para as figuras separadamente num tempo em que a referência maior também é a mais questionada: a família. Os novos tempos afastaram as pessoas não apenas pelo distanciamento físico, mas também, embora pareça contraditório, pelo isolamento que propiciam os instrumentos de comunicação.

A busca por diferentes modelos de relacionamento questionaram os papeis já existentes sem muitas certezas do que se colocaria no lugar. Ouvi recentemente que “pais do século passado não eram bons pais”. Como assim: quem disse que no próximo século se poderá dizer que “pais do século XXI foram bons pais”? Esta virada de século colocou não apenas a instituição família em xeque, mas, especialmente, os papéis que se davam aos componentes deste grupo, em especial o masculino. O pai sendo um deles.

Mães descobriram que, para além de serem genitoras, têm lugar no mercado de trabalho. Em alguns casos, por realização pessoal, em outros por necessidade econômica. Sem que se tenha encontrado solução para a questão do acompanhamento dos filhos, no complexo mundo da educação, especialmente na criação de valores e referências. O questionamento da estrutura familiar não coloca no lugar algo que substitua um pilar da formação da criança, que deveria ser complementado pela escola e o entorno social.

Avós perdem o espaço de ser apoio familiar por estarem distantes ou em casas de repouso. Diferenças de geração não são a explicação para que netos sejam afastados do privilégio de conviverem com os mais idosos. Não é só discurso, mas necessidade tanto para crianças e jovens, quanto para quem está em idade avançada. Quem nunca teve a oportunidade de “ir para a casa dos avós” não tem ideia do quanto uma mudança de visão ajuda, também, aos filhos a entenderem como os próprios pais envelhecem.

Numa destas muitas séries coreanas (Desgraça às suas ordens – pode ser vista pela Netflix. Vale a pena), lá pelas tantas o personagem é amassado pelo cunhadinho que fica feliz por ter alguém que cuida da irmã. Então, diz para um tio com quem estava conversando: “ele vem no pacote?”. Embora todas as piadas sobre cunhados e sogras, ou cunhadas e sogros, existem os “porqueiras”, como diria uma tia, mas muitos daqueles que se tornam irmãos ou irmãs e, de outro lado, pais e mães de coração.

Em muitos destes grupos falta um agregador familiar. Como o pai que reúne filhos, filhas, genros, noras e netos todos os domingos para uma feijoada e arroz com galinha, seguido de uma roda de música, que ninguém é de ferro. Dificilmente, alguém não vai. É a esperança de se encontrar, por menor que seja, o valor de pessoas que, próximas ou não, partilhem o possível. Que acolham e protejam a vida que se desenvolve, deem suporte em momentos de crises e de carências. O que resta da família é alguém que personaliza a acolhida: braços abertos para consolar, colo perfeito para não desistir…

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