A vacina, a escuridão e a esperança

Os cristãos dos primeiros tempos celebravam pela madrugada, concluindo seu ritual ao nascer do sol. Vindos da mais intensa escuridão, que precede a aurora, faziam a analogia com a ressurreição de Jesus e sentiam-se renovados pelo convívio e o sentido de iniciar uma nova jornada, estimulados pela Eucaristia. Creio até que perdi a continuidade da palestra quando ouvi esta interpretação para um momento tão intenso de fé e tentativa de compreensão do mistério, que ganhava sentido para um cristianismo que se fortalecia e ocupava espaços por todo o mundo conhecido.

Não foi fácil para aqueles que ainda precisavam sacramentar uma doutrina, convencer de novas rotinas de vida e existir de forma diferente do que era estabelecido pelas religiões e forças dominantes. O culto pregado pela “seita do Nazareno”, como inicialmente era conhecida, se separava de um corpo maior (o Judaísmo), tendo a perspectiva de viver com suas famílias o ensino do jovem que iniciou sua pregação pelos mares da Galileia. De seita, virou religião reconhecida por muitos povos e chegou ao patamar de uma das maiores da história da humanidade.

Ninguém disse que a história foi toda bonita. Embora muitos queiram bater nos pecados que o Cristianismo teve – perseguições, conversões forçadas, inquisição – é preciso olhar para o seu lado humanizador, em que preservou valores culturais e foi capaz de montar estruturas nas áreas de saúde, educação, social… os mesmos princípios que nortearam os primeiros pregadores, mas que passaram por interpretações e ajustes com o andar da história. Com variadas visões, viram novos templos e pregadores brotarem e desaparecerem com os primeiros sintomas do coronavírus.

Agora que existe vacina no horizonte, as religiões precisarão se reinventar. Se já vinham em baixa, algumas atravessaram a pandemia apostando nas redes sociais. Certos de que depois o novo normal dará lugar ao novo presencial. Celebrações e eventos sentiram que os recursos da internet fizeram pontes com públicos que não se faziam mais presente e a oportunidade da vivência em comunidades virtuais. Entretanto, não creio que analistas sérios se animem a fazer previsões. Porém, uma coisa é certa: esqueçam o retorno ao que se fazia antes… é a aposta no cavalo errado.

As festividades de Natal e da Virada serão difíceis. Com a mesma conversa de que se está cansado e uma “escapadinha” aqui e outra ali não causam problemas. Emblemática a charge mostrando a Morte e a menina – vinda de uma festa – sentadas na escada, conversando. A menina: “mas a gente seguiu todas as normas, todos os protocolos. Eu preciso ir?” A morte: “precisa sim, mas não te preocupa, tu estás levando junto a tua mãe e a tua avó!” Confirma a máxima de que as pessoas somente se dão conta da gravidade do momento quando perdem alguém próximo.

A escuridão que precede os primeiros raios de sol está se dissipando. Falta pouco para que a vacina chegue. A imunidade não acontece apenas porque ela já existe, mas porque, gradativamente, cerca o coronavírus e cria barreiras para a disseminação. Fizemos um tempo de advento (preparação) desde março. Merecemos uma perspectiva de vida e saber que o nascer de um novo dia é carregado de ressignificados nas relações e do entendimento da vida, enfim, da compreensão dos nossos próprios medos e sofrimentos. A primeira luz no horizonte já dá sentido à nossa esperança!

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