A falência da comunicação e da democracia na Zona Sul

Sérgio Corrêa, jornalista e radialista.

Em Pelotas, o processo de falência da comunicação e por consequência da democracia em suas múltiplas formas de expressão, acontece e não é de hoje.

Começou quando a emissora de TV da Rede Pampa deixou de produzir conteúdo local e foi seguida pela TV Nativa, ambas pelo que se tem de informações possuem concessão para geração de conteúdo e não apenas retransmissão.

Não bastasse os canais de TV, as rádios FMs, numa transição lenta e gradual foram vendidas uma por uma para grupos de comunicação de outras regiões, não restando nenhuma que seja possível afirmar que o proprietário(a) é de Pelotas, reside no município e que o rendimento financeiro auferido pela emissora fica em Pelotas.

Posteriormente tivemos em 2016 o encerramento das atividades da Rádio Cultura AM 1120. Mais tarde, o Diário da Manhã que foi para os leitores a opção de um segundo jornal diário, acirrando a disputa pelas pautas, assim como pelos leitores com o concorrente Diário Popular, provocou a melhora qualitativa e quantitativa de ambos, contudo, o DM encerrou seu parque gráfico acabando com o jornal impresso permanecendo apenas nas redes sociais.

Na noite de 31 de agosto de 2023 a Rádio Pelotense AM 620, a mais antiga emissora do estado silenciou a frequência 620 encerrando suas atividades.
Em 12 de junho de 2024, Dia dos Namorados, o Diário Popular com 133 anos de existência comunicou o encerramento das atividades tanto no jornal impresso, quanto nas redes sociais.

Coincidência ou não, dois fatos chamaram-me a atenção. Primeiro: o Diário Popular foi profissional até o último minuto, não permitindo que ninguém noticiasse antes dele próprio o encerramento das atividades.

Segundo: a última edição no dia dos namorados. Em certa medida a população de Pelotas e da Zona Sul tinha um apreço, uma paixão pelo Diário Popular e seus diversos conteúdos que conquistavam os apaixonados pela leitura como se um namoro fosse.
O Diário Popular foi o referencial para a prática do jornalismo escrito, tornando sua redação um local desejado por fotógrafos e jornalistas graduandos do curso de jornalismo da Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e posteriormente da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Tratando-se de política, no Diário Popular havia espaço tanto para a direita quanto para a esquerda, para opiniões diversas e divergentes.

O Diário Popular sempre alimentou o ego da aristocracia pelotense. Através das colunas sociais, mostrava os pelotenses que se distinguiam quer seja pelo patrimônio, pela atividade profissional ou pelo destaque e circulação em celebrações sociais, isso alimentava aquela pergunta tradicional, de que família tu és?

Essa pergunta era muito importante para o reconhecimento dos iguais, afinal nessa região a riqueza material foi construída à custa da mão de obra escrava, e essa mão de obra, na casa grande, proporcionava a essa aristocracia o ócio, este, por sua vez, garantia tempo integral para a cultura, a literatura, a música e outros atrativos restritos a poucos, isso justifica a pergunta: de que família tu és ou qual é teu sobrenome?

Hoje todos lamentam o encerramento das atividades do Diário Popular, mas poucos estavam ativos como assinantes pagando mensalmente pelo recebimento do jornal físico. As empresas locais deixaram de anunciar no jornal e optam por despejar rios de dinheiro em comerciais de TV.

Outro componente que contribui é a sociedade contemporânea, esta, adoeceu com as redes sociais, quer textos pequenos para leitura rápida, quer vídeos curtos, quer conversas rápidas, falta paciência e tolerância para ouvir o outro, a vida tem que ser rápida, no entanto, quando cada cidadão ou cidadã senta-se diante de um médico para uma consulta, reclama que o médico atende rápido.

Seguiremos lutando por espaços de comunicação oficiais, caso contrário seguiremos adoecendo com as mentiras produzidas e veiculadas nas redes sociais onde não há responsáveis pela notícia.

Toda vez que um veículo de comunicação encerra suas atividades, morre um órgão desse corpo vivo e orgânico que tem nome e sobrenome, democracia e comunicação, uma não existe sem a outra.

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