Pelotas: Um panorama da permanência do skate no Parque Dom Antônio Zattera

Campeã gaúcha Marina Brauner andando em alto nível na nova Skate Park. (Foto: Marco Castro)

Por Lucian Brum

A construção da primeira pista de skate de Pelotas estava em andamento na então praça Júlio de Castilhos. Havia entre os skatistas uma grande ansie­dade em começar a praticar naquele local inovador. Em um fim de semana, carregando seus skates, um grupo de amigos entrou na obra e subiu na pla­taforma. Lá em cima, enxergaram a paisagem que marcaria sua juventude. Nesse período, as rampas já tinham ga­nhado forma, apesar do concreto ainda estar em processo de cura. Por conse­quência, apareceu o guarda responsá­vel pela obra. Assim que o trabalhador se aproximou, os amigos desceram a rampa com os skates em velocidade até o outro lado. O guarda, para con­seguir agarrá-los, deu a volta correndo ao redor da pista, mas, ao chegar ao outro lado, o grupo desceu a rampa no­vamente e voltou com seus skates para a base oposta.

Um dos skatistas que estava nes­se episódio era o engenheiro civil Luiz Henrique Schaun. “Para aquela turma que tinha 14, 15 anos, se deparar com uma pista de skate de concreto aqui na cidade causou uma euforia. Eu es­tudava de manhã e, no início da tarde, ia para a praça e ficava andando até a noite, isso todos os dias”, lembrou.

Na edição do extinto Diário Popular do dia 27 de outubro de 1979, consta a seguinte nota: ‘‘Segunda-feira próxi­ma, segundo informações da Empresa de Turismo do Município de Pelotas (Eturpel), começarão a ser colocadas as cargas de aterro na quadra da rua Quinze de Novembro, compreendi­da entre a Dr. Amarante e a avenida Bento Gonçalves, onde será constru­ída uma pista de skate”. Essa modifi­cação urbana partiu da reivindicação de um grupo de skatistas que tinha consciência social. O pedido aconte­ceu devido à repressão exagerada que os jovens vinham sofrendo ao se divertirem praticando manobras nas calçadas. E com a ideia da construção de um local apropriado, foram levar a sugestão para a administração do mu­nicípio. Foi como estar no lugar certo, na hora certa, pois o trânsito de veí­culos representava um perigo para as famílias que buscavam lazer na praça, motivo que fez a prefeitura aceitar a empreitada.

Pista de skate na antiga Praça Júlio de Castilhos nos anos 1980. (Foto: Arquivo pessoal)

No início dos anos 1980, de modo geral, o skate era assimilado a um brinquedo. Além disso, não existia um comércio regular que proporcio­nasse a compra de peças e equipa­mentos. A construção de uma pista de skate em Pelotas era algo extrava­gante. E para muitos que a viam pela primeira vez, até estranho. “Era difícil conseguir equipamento de proteção adequado; muitos usavam joelheiras de vôlei, capacete de bicicleta… Os skates ainda não tinham um padrão de medidas, então, quando eu via um modelo diferente em revistas, tentava adaptar, aumentando eixos, lixando as tábuas ou torneando as rodinhas”, contou Schaun, que acrescentou: “A nossa vontade de aprender novas ma­nobras era verdadeira. E conseguimos mostrar para a comunidade da cidade que o skate era mais que uma brinca­deira. Existia uma cultura com iden­tidade. E uma turma evoluindo e se divertindo bastante”.

Praça lotada assistindo aos skatistas. Na foto Luiz Henrique Schaun, executando um aéreo no “Panelão’’. (Foto: Arquivo pessoal)

Com empenho, os skatistas iam me­lhorando o equilíbrio e a técnica. Aos fins de semana, o entorno do que era popularmente chamado de “Panelão’ ficava lotado. As pessoas se surpreen­diam com os giros, os saltos e a veloci­dade das manobras. Era uma moderna forma de expressão que a comunidade tinha o privilégio de apreciar. No entan­to, a obra foi feita sem base em pro­jeto arquitetônico ou de engenharia. Desde o início, apresentou problemas em sua estrutura. Com a intempérie e sem receber manutenção, ao passar dos anos, usar a pista de skate ficou impraticável. No início dos anos 1990, ela foi demolida.

Por volta de 10 anos depois, natu­ralmente, a praça passou por diver­sas modificações. A mais significativa foi a troca do nome para Parque Dom Antônio Zattera. Os skatistas não se reuniam ali, mas não estavam muito longe. Na Bento Gonçalves, quase em frente à praça, ficava a Igreja Batista. No templo, o pastor Geremias Corrêa mantinha o “Projeto Skate’’. Os encon­tros eram aos domingos à tarde e a cada fim de semana a adesão só au­mentava. “O pastor reuniu skatistas de todos os bairros. Ele passava uma mensagem de paz e ensinava que era preciso ter respeito pelo próximo. De­pois do encontro, a galera saía para andar de skate com a barriga cheia de cachorro-quente e refrigerante, muita energia e inspiração’’, contou o profes­sor Emanuel Bueno, o Maneca.

Foi em torno do “Projeto Skate’’ que se formou um grupo para orga­nizar a reivindicação de uma pista pública. No início dos anos 2000, o setor privado construiu duas pistas particulares. Esse movimento trouxe à cidade demonstrações de profissio­nais de nível nacional e aumentou o número de jovens querendo andar de skate. Nessa época “tu balançava uma árvore e caia um skatista’’. Quando o grupo foi levar a reivindicação para a administração do município, o proje­to teve prioridade e foi aprovado em seguida pela política do Orçamento Participativo. Sendo assim, o lugar es­colhido para execução da obra não podia deixar de ser a praça onde o skate havia feito história.

Maneca lembrou que a pista pú­blica gerou “um sentimento forte de conquista’’. O professor compreendeu que “os mais velhos tinham lutado pela construção da pista, para que mais pes­soas pudessem andar de skate e sentir a mesma felicidade que eles tiveram’’. Nessa etapa, com a consolidação do mercado e da modalidade como es­porte, os skatistas pelotenses viam na pista pública a possibilidade de manter um treinamento regular e sonhar com a profissionalização.

Apesar desse feito importante, na primeira década dos anos 2000, a evolução da sociedade foi veloz e transformadora. Passamos do walkman para o iPhone num piscar de olhos. Com poucos anos de uso, o projeto da pista parecia algo do pas­sado. Mesmo assim, a Pista Pública de Pelotas (PPP) proporcionou inde­pendência aos skatistas para que pu­dessem desenvolver a cultura. Logo, a organização de campeonatos, com participação de artistas e músicos, agitou a praça novamente.

Com o skate em atividade, a pra­ça ganhou movimento. Na PPP, mui­tos shapes (pranchas de madeira que mantêm a estabilidade do skatista) foram quebrados, muitos trucks (pe­ças de metal que ficam encarregadas de fazer as curvas do skate na dire­ção em que se inclina o corpo) foram detonados e muitas rodinhas foram gastas. Com a revolução causada pela internet, o acesso a revistas, vídeos e ao comércio eletrônico influenciou os skatistas a seguir evoluindo. En­tão, os praticantes compreenderam que precisavam se mobilizar. “Nós mesmos começamos a fazer a manu­tenção da pista, tínhamos uma caixi­nha em que íamos juntando dinheiro para comprar massa plástica e tinta’’, contou Maneca. Em conjunto com essas ações, os skatistas seguiram organizando campeonatos e eventos para mostrar que estavam persistindo no esporte e que a pista precisava da atenção do poder público. Os even­tos tinham uma cobertura positiva da imprensa e a mensagem que se pro­curava reforçar virou um lema: “PPP, Reforma e Ampliação Já”.

A cidade, porém, passou por um processo de reorganização do espaço público em um episódio que ficou co­nhecido como “fim do trailers”. No Par­que Dom Antônio Zattera, o pequeno parque de diversões que ainda atraía algumas famílias, foi removido. Sem um remodelamento, pouca manuten­ção de jardinagem e apenas um poste de luz funcionando, a praça foi se tor­nando um lugar inseguro. Moradores das redondezas evitavam atravessá-la. Os skatistas, com o tempo, também minguaram. Demoraria alguns anos para a praça ganhar vida novamente. Entretanto, os agentes que se dedica­riam para conseguir uma transforma­ção, assim como as árvores, haviam criado raízes no local.

Com um projeto feito por arquitetos especializados, contendo um circuito de obstáculos entre os mais moder­nos do Estado, a nova Skate Park foi inaugurada no dia 4 de junho de 2022. Conjuntamente, o Parque Dom Antônio Zattera recebeu requalificação em seus passeios e na quadra de areia. Foram implementados novos bancos, lixeiras e um brinquedo adaptado para pessoas com deficiência. Um avanço expressivo para o convívio na praça foi a implanta­ção de iluminação em LED.

Pista Pública de Pelotas sendo demolida. Na foto, Emanuel Bueno (Maneca) deslizando pela última vez na caixa da Pista Pública de Pelotas. (Foto: Lucian Brum)

“A nova Skate Park contribuiu muito para minha evolução. Antes, eu tinha que viajar sempre para treinar’’, disse a atual campeã gaúcha de skate, Marina Brauner (Mai). Essa transformação re­presenta a persistência dos skatistas e a maturidade de uma cultura que busca solução para os problemas. Os recur­sos necessários para a requalificação da praça foram indicados pelo depu­tado federal Daniel Trzeciak (PSDB). Foi um investimento que potenciali­zou inclusive os sonhos dos skatistas: “O meu maior sonho é um dia partici­par de uma olimpíada. Venho treinando muito e quero estar sempre preparada para as oportunidades que possam sur­gir”, disse Mai.

A praça teve os nomes de General Câmara, Júlio de Castilhos e Dom An­tônio Zattera, mas também é conheci­da pela alcunha de “praça dos maca­cos’’. Entretanto, como vimos até aqui, nesses mais de 40 anos de territoriali­dade, é natural que muitos a venham chamando de Praça do Skate.

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome