Quilombolas: memórias históricas e resgate da cultura africana em Canguçu

Ela lembra que a luta por direitos não deve ser interrompida. (Foto: Arquivo Pessoal)

Canguçu é o município com o maior número de quilombos da região Sul, todos devidamente certificados pela Fundação Cultural Palmares. As 16 comunidades e 550 famílias quilombolas do município se encontram nas localidades da Favila, Cerro da Boneca, Bisa Vicenta, Filhos dos Quilombos, Santa Clara, Manuel do Rego, Potreiro Grande, Iguatemi, Estância da Figueira, Faxinal, Cerro da Vigília, Boqueirão, Moçambique, Passo do Lourenço, Armada e Cerro das Velhas.

A Associação Brasileira de Antropologia define que “o termo quilombo não se refere a resíduos ou resquícios arqueológicos de ocupação temporal ou de comprovação biológica […] consistem em grupos que desenvolveram práticas cotidianas de resistência na manutenção e reprodução de seus modos de vida característicos e na consolidação de um território próprio”.

A aproximadamente 30 km da cidade, no Quilombo do Passo do Lourenço, mora Rozane Pereira, uma agricultora cheia de esperança que se orgulha de suas origens.
“É muito satisfatório, para mim, morar no interior, trabalhar na agricultura, plantar e colher. Me sinto muito grata em pertencer ao grupo de quilombos do Passo do Lourenço”, define.

Rozane destaca os direitos e avanços obtidos,
sem esquecer a luta necessária para conquistá-los. (Foto: Arquivo Pessoal)

Em todo o Brasil é celebrado desde 2011, o dia 20 de novembro como Dia da Consciência Negra, data importante que Rozane não deixa de lembrar. “Todos os anos, nos reunimos nesse dia para fazer festa, comemoramos o Dia da Consciência Negra. A data é muito mais que um dia de festa porque refletimos o que realmente significa, o que foi a escravidão, o que nossos antepassados passaram, o que podemos resgatar dessa ancestralidade para os dias de hoje”, conta.

As lutas e conquistas ao longo do tempo
A comunidade quilombola do Passo do Lourenço foi fundada em 12 de abril de 2008. Atualmente, é composta por mais de 40 famílias participantes. “Nossa prioridade é o resgate à cultura. Nos reunimos mensalmente para dialogar, estudar as raízes, procuramos ver nossos direitos enquanto comunidade e entender o que ocorreu há anos atrás, quando houve a escravidão”, disse. Ainda sobre a escravidão, Rozane define que “foi muito triste na história do Brasil. Até hoje, ainda precisamos recuperar nossa autoestima, que por muitas vezes é baixa”, conta.

“Costumamos fazer uma reflexão do que é uma comunidade quilombola, pensando em trazer benefícios positivos não somente para nós como quilombolas, mas para todos. Nossa associação não tem o intuito de ser mais que as outras pessoas, mas, sim, buscamos por direitos iguais. Todos somos irmãos”, destaca.

Rozane Pereira, à direita, mora na comunidade quilombola do Passo do Lourenço
fundada em 12 de abril de 2008, que possui mais de 40 famílias. (Foto: Arquivo Pessoal)

Rozane conta que é atuante na comunidade desde sua fundação, inclusive com participação familiar. Ela já passou pela secretaria e seu pai já foi presidente, mas hoje é vice. Sobre o protagonismo dos quilombos da região “é um orgulho para nós canguçuenses sermos o município com mais comunidades quilombolas do estado”, celebra.

Para ela, a união existente na comunidade propicia melhorias na autoestima de todos. “É uma grande satisfação estar nesse grupo de quilombolas, porque depois que a gente se reuniu e conversou, por conta des se diálogo, a nossa autoestima sobe muito. A gente se sente feliz em ter a nossa associação e conseguir várias vitórias e benefícios através dela”.

Orgulho da cultura
As conquistas das comunidades quilombolas são fruto de muita luta. Nesse sentido, Rozane lembra que os direitos adquiridos foram possíveis a partir de uma união comum “seguimos unidos, como diz um provérbio africano ‘se quer ir mais rápido, vá sozinho, mas se quer ir mais longe, vá em grupo’ isso porque juntos vamos muito mais longe”, aponta. Em suas vivências, enquanto mulher, a agricultora enuncia sua mãe e avó como fonte de inspiração “me ensinaram coisas que carrego comigo até hoje, foram muitos significativas para eu continuar lutando, sonhando e realizando”.

Ela, que se define como uma mulher forte, sonhadora e resistente, também representa muitas outras mulheres negras que enfrentam batalhas diárias ligadas ao valor de trabalho, ascensão social, acesso à educação, preconceito, racismo e outras tantas marcas que o passado escravocrata do país deixa nos dias atuais. Como brasileira nata, Rozane é movida pela esperança de dias melhores.

“Apesar dos obstáculos da vida, procuro manter um sorriso no rosto e nunca desistir dos objetivos. Lutar pelo que posso mudar e aceitar o que não posso, sempre tentando melhorar e alcançar meus objetivos”, afirma.

Cultivar as raízes africanas, as tradições e costumes são metas em sua vida que, segundo ela, seguirão ao longo de sua trajetória. “Procuro cultivar e zelar pelas minhas raízes, ancestralidades. Se soubermos nossa história, fica mais leve a caminhada. Sabendo de onde viemos, com certeza saberemos para onde vamos”.

As experiências construídas com o passar do tempo são pautadas a partir do desejo em comum por uma vida melhor. “Faz 14 anos que vamos construindo um futuro melhor para todos, juntos, unidos e sonhando. Sempre com um pensamento positivo de que a gente tem que seguir em frente e, assim, podemos conquistar muitas coisas, direitos e objetivos”, aponta.

A vida de Rozane possibilita com que viva um dia de cada vez, contemplando privilégios da vida no meio rural. “Gosto muito de morar no interior, aqui é meu lugar, meu paraíso, é onde eu me encontro”, e comemora “minhas maiores conquistas são: ser feliz, respirar o ar puro do interior, viver em contato com a natureza, escutar o canto dos pássaros, beber água limpa, estar em paz, ter uma alimentação saudável”, cita. Cercada por esses elementos, Rozane projeta um futuro ideal, com harmonia entre todos.

“Meu maior sonho é viver em um mundo onde não haja guerra, fome e discriminação. Com mais respeito e empatia, onde todos conseguissem se colocar no lugar do outro. Se pudemos sonhar, podemos acreditar, e eu acredito”.

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