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2017-07-03 O som que dá asas à imaginação

As pessoas olhavam vitrines. Algumas estavam na praça de alimentação. Outras, acompanhavam crianças nos brinquedos. De repente, um estrondo e um grito. Algo acontecia. A curiosidade foi maior do que a preocupação com a segurança: um rapaz subiu numa cadeira e começou a cantar. Outro o acompanhou de uma mesa onde lia jornal. Juntou-se um terceiro que transitava por ali. 

Ao todo, cinco vozes chamaram a atenção ritmando o início da música, fazendo a cadência em bancos, mesas, latões de lixo ou corrimão da escada rolante. Dentre moças passeando, que estavam nas lojas, que faziam limpeza formou-se um grupo de dança em meio à multidão aturdida e encantada que abria espaço para ver e ouvir.

Era um grupo musical alemão que “surge” dentro de um shopping e repete performance como a de uma Orquestra Sinfônica que inicia apresentação no meio da rua a partir de uma moeda que uma garota colocou no chapéu que o trompetista tinha a seus pés. Ou ainda o grupo de dança que se forma na entrada do cais de um porto.

Coloquei-me no lugar das pessoas que andavam pelo shopping, faziam compras nas ruas, passeavam a beira do rio e foram surpreendidas por uma manifestação artística. No início, um susto. Depois, um intervalo nas compras, no cumprimento das tarefas, deixar de lado a agitação e ter o direito a um merecido espaço de sanidade mental. 

Devagarinho, deixar o corpo seguir o ritmo. Acalmar o espírito - deixando que se vá a tensão - e sentir que a docilidade do que expressam corpos e instrumentos é um desafio para alimentar a sensibilidade. O momento de parar alguns minutos é a chance de aprender que a vida é muito mais do que apenas passar por ela. O artista que surge do “nada” provoca a parada necessária para silenciar e encher os olhos com arte.

Música. O que Mandy, cantora de 29 anos, surda desde os 18, em tese, não teria como executar. Apresentou-se num programa de talentos dizendo-se triste porque não lembrava mais da voz do pai! Mas estes desafios a fizeram se valer da técnica e dos demais sentidos - canta sentindo a vibração do som no piso - e superar os obstáculos, pois “música é mais do que sons, é emoção... preciso tentar, eu tenho que tentar!”.

Em comum? A música, que humaniza e desperta sentimentos adormecidos. O tempo que passa embota nossos sentidos, ficamos meio atordoados, pelo meio do caminho. Sem perceber que a diferença entre viver e morrer pode ser, exatamente, ouvir o som que dá asas à imaginação e transcende a realidade em busca do Infinito, única forma de não permitir que morram nossos sonhos.

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Manoel Jesus

Educador

manoeljss@hotmail.com

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