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2017-05-08 Uma reforma inoportuna

Apenas um casal: dona Joana e seu Henrique. Chegaram à aposentadoria com mais de 40 anos de trabalho, nem sempre com carteira. Portanto, tiveram que esperar os 60 e 65 anos, respectivamente. Dona Joana continuaria suas atividades domésticas, seu Henrique pensava conseguir outro trabalho.

Mas se até para os novos era difícil emprego, para um idoso, quase impossível. Neste meio tempo, cuidaram de um filho que faleceu. Conseguiram seu benefício e juntaram uma renda de três salários mínimos, cerca de R$ 2,8 mil. Não tinham do que reclamar. A casa era própria e ainda gastavam pouco com remédio.

Seu Henrique faleceu. Dona Joana não conseguiu ficar com toda a renda, mas com um salário a mais, benefício do marido. Foi quando caiu e começou seu martírio: virou cadeirante, dependendo do uso de fraldas geriátricas e suplementos. Os dois salários tornaram-se insuficientes para pagar cuidadores. A família pequena e todos trabalhando. Fechar as contas ao final de um mês passou a ser uma tortura.

Nomes mudam, mas todos conhecem histórias parecidas. A grande massa que sobrevive da Previdência não é a que exorbita nos seus vencimentos, chegando a valores que pessoas como o casal nem consegue entender, pois retiram dos cofres públicos mais de R$ 30 mil. 

Contentam-se com as migalhas que o governo estabelece de salário mínimo, quando algumas instituições apontam que deveria alcançar, ao menos, R$ 1,8 mil. O grande “pecado” que está sugando pelo ralo o dinheiro de quem pagou uma vida inteira para ter o direito a uma aposentadoria não se refere aos que ganham salário mínimo ou chegam ao limite máximo da Previdência.

Um governo de transição que tem a empáfia de querer marcar pela “competência” às custas das massas não entendeu seu papel na história. As reformas precisam ser feitas por um Congresso renovado pelo voto (eleições de 2018?) e um governo que limpe a máquina pública, freie a corrupção e a sonegação. Ainda, se resolvam as pendências na Justiça e a “cassação” de figuras que grudaram e se perpetuam no poder.

Instituições - inclusive igrejas - aprovaram a greve para frear os descalabros. Mas há outra parte: esquecer discursos vazios e politiqueiros e convencer a maioria silenciosa. A mudança depende das pessoas de bem serem mais ousadas, esquecerem diferenças e que tem jeito de fazer um Brasil melhor. Se não foi possível para dona Joana e seu Henrique, ao menos que o seja para nossos filhos e netos, as próximas gerações.

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Manoel Jesus

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