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2016-11-28 Mantenham as portas abertas

O papa Francisco deparou-se com mais um problema interno na Igreja Católica: quatro cardeais se rebelaram contra o documento Amoris Laetitia (Alegria do Amor), em que apresenta seu pensamento a respeito das relações familiares e orienta seguidores. Numa tentativa de coagir o pontífice, enviaram correspondência exigindo respostas ao que consideram imprecisões, no que diz respeito “à integridade da fé católica”.

Ninguém é inocente ao ponto de não saber que a Igreja Católica tem várias correntes de pensamento em seu interior, de uma ala conservadora até um pensamento social mais avançado. É, em si, uma instituição conservadora. E exatamente por ser assim, em sentido primeiro - mantém-se fiel aos seus princípios e faz as mudanças em ritmo mais lento do que muitos gostariam - que sobrevive aos apocalípticos que anunciam seu fim.

Quando o papa Bento XVI foi escolhido, confesso, tive muitos receios: não acreditava que fôssemos ter chance de ver uma série de mudanças se concretizarem. Então, veio a primeira surpresa. A renúncia de Bento, num dos atos mais corajosos de um papa diante de sua Igreja, reconhecendo que já não tinha forças para lidar com as articulações políticas que se faziam no próprio Vaticano.

A escolha de Francisco foi um bálsamo para os católicos. O tempo passou e, embora seja coerente com seu anúncio e testemunho desde o primeiro dia, passou a ter restrições à direita e à esquerda. Lembrei de um bispo que dizia: tenho que caminhar de tal forma que ajude os que andam lentamente, mas também a refrear aqueles que atropelam o processo.

Trabalhando com formadores de opinião da Igreja Católica, peço atenção ao noticiário sobre o papa Francisco. É pauta não apenas para os meios de comunicação, mas para a reflexão das próprias igrejas locais. No Ano da Misericórdia fez a Igreja caminhar num mesmo rumo e clareou seus horizontes, propondo que se “mantenham as portas abertas”. Ganhou a simpatia de católicos afastados, assim como de cristãos e não cristãos.

O papa sabe que uma instituição que sobreviveu a dois mil anos de história carrega o desgaste de ter sido agente de muitas mudanças. A ponta do iceberg que os cardeais fazem aparecer no oceano da esperança que se chama Francisco é um passo para a transparência.

Possibilita a reflexão, correção de rumos e a certeza de que o caminho iniciado pelo Jovem Galileu sai dos gabinetes de suas eminências e ganha as ruas, as praças, as estradas e o coração daqueles que lutam pela “paz na Terra aos homens de boa vontade”. Provoca a mente de gente de fé que deseja ter o direito de concretizar uma religião universal, identificada, especialmente, com os princípios da justiça e da fraternidade.

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Manoel Jesus

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