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2016-08-08 O silêncio do papa

Estava num lugar público quando vi as primeiras imagens: apenas um senhor idoso, semblante abatido, caminhando lentamente, consciente do peso da responsabilidade que carrega sobre os ombros, mas também da energia negativa que impera sobre aquele ambiente.

No burburinho entre os presentes, um pedido de silêncio e os olhos voltaram-se para a televisão onde o papa Francisco percorria os caminhos de Auschwitz, rezava diante do paredão de fuzilamento e sentava alguns minutos para refletir sobre um dos mais tenebrosos crimes cometidos pela humanidade.

Embora os jornalistas pedissem uma declaração, o papa fez a mais contundente avaliação ao afirmar que, diante da monstruosidade do que representavam aqueles caminhos, paredes e calabouços, somente era possível protestar e pedir a atenção pelo silêncio.

Uma outra imagem correu o mundo: o fotógrafo levou um susto. À sua frente, uma menininha em um cenário de guerra. Para ele, algo comum já que faz a cobertura dos conflitos instalados na Síria. Mas a reação da criança surpreendeu. Ao ver a câmera voltada para ela pensou que fosse uma arma e levantou os bracinhos, num gesto aprendido com pais e irmãos para escapar da violência que assola o lugar onde mora.

Ver uma criança portar-se como um adulto diante de uma cena de violência é o triste reconhecimento de que o olhar infeliz da menina já aprendeu a conviver com o descaso, com o ser humano e com a sua existência. Levantar as mãos é um pedido para poupar a vida, único bem que lhe resta, num entorno de devastação e desesperança.

O papa afirmou que não vivemos em paz. Durante a Jornada Mundial da Juventude exortou jovens a se desacomodarem e não aceitarem a situação de guerra declarada ou não em nível internacional, com reflexos na vida das sociedades locais. Nas paredes dos campos de extermínio estão os nomes de judeus, ciganos e homossexuais vítimas do nazismo, mas igualmente da omissão da comunidade internacional.

A menina Síria, morta, não terá seu nome inscrito numa placa e sequer vai merecer a memória da sociedade. Emocionou ver um ancião não fugir à luta e dizer em todas as instâncias que precisamos reaprender algo simples: cuidar de gente. Os homens, mulheres e crianças que sucumbiram ao nazismo morreram em vão se não aprendermos essa lição. 

A memória afetiva de Francisco viu naqueles caminhos uma outra via crucis, impossível de ser estancada enquanto houver a omissão dos bons. Muitas crianças ainda vão levantar seus bracinhos diante de ameaças contra suas vidas. Sua inocência está sendo violentada enquanto o mundo não parar diante do silêncio do papa.  

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Manoel Jesus

Educador

manoeljss@hotmail.com

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